De onde vem a inspiração?

Venus de Boticelli

Obra “Nascimento da Vênus” de Sandro Botticelli. No canto superior esquerdo, o sopro divino.

No tempo em que eu cursava bacharelado em Artes Visuais na FBA-SP (Faculdade Belas Artes de São Paulo), utilizar o termo “inspiração” para justificar uma grande ideia era totalmente desaconselhável, pra não dizer proibido. Isso acontecia, provavelmente, devido à conotação teológica desse termo que, nesse sentido, significaria uma ideia de origem mística, um tipo de “sopro divino”.
Apesar de utilizado por muitos séculos para designar uma das principais etapas do processo de criação artística – Michelangelo dizia que sua arte era inspirada diretamente por Deus – o termo “inspiração” foi distanciando-se gradativamente do vocabulário pós-moderno, pelo qual, mesmo os processos criativos, passaram a ser orientados unicamente pela ciência, lógica e ceticismo.
O interessante no meu caso foi que, exatamente, pela lógica científica instituída pelo meio acadêmico, mesmo em um curso de Artes Visuais, acabei motivado a trilhar uma longa investigação sobre o termo “inspiração”. O fato é que cheguei à conclusão de que eu não estava ins-PIRADO, mas verdadeiramente INSPIRADO.
Existe um conceito de “sonho desperto” que foi amplamente discutido pelo filósofo Gaston Bachelard em sua obra A Poética do Devaneio (1961) e que se encaixa muito bem ao que seria o início do processo criativo de muitas pessoas, que insisto em chamar de “inspiração”. Segundo esse filósofo, “devaneio é uma atividade onírica na qual subsiste uma clareza de consciência. O sonhador de devaneio está presente em seu próprio devaneio. Mesmo quando o devaneio dá a impressão da fuga para fora do real, para fora do tempo e do lugar, o sonhador do devaneio sabe que é ele que se ausenta – é ele, em carne e osso, que se torna um ‘espírito’, um fantasma do passado ou da viagem”. Vale ressaltar que o francês Bachelard não era um religioso ou místico, mas, pelo contrário, foi especialmente motivado pelo contexto da revolução científica promovida no início do século XX (1905), especialmente pela Teoria da Relatividade.
A propósito, foi essa teoria de Albert Einstein que promoveria, ao longo do século XX e XXI, avanços inimagináveis na compreensão da origem do nosso Universo, a exemplo da descoberta recente de uma certa partícula de Deus, que teria dado início a absolutamente TUDO que conhecemos. E o que tem haver o físico Albert Einstein com A Poética do Devaneio do filósofo Bachelard? TUDO! Esse físico alemão tinha o costume de se colocar em estado alterado de consciência chamado por ele de experimentos de pensamento, um tipo de devaneio metafórico tridimensional, muito parecido também com o que o cientista inglês Isaac Newton (1643 – 1727) costumava vivenciar séculos antes.

Teoria da Relatividade

Ilustração de Einstein em meio a seus “experimentos de pensamento”.

Nesse sentido, eu compararia também a experiência desses dois cientistas com o estado meditativa do filósofo Platão (427 a.C. – 347 a.C.) pelo qual acessava o chamado “Mundo das Ideias”, também descrito como um plano invisível, onde habitaria segundo ele “todas as ideias autênticas e verdadeiras”. Coincidência? Não! Coincidências não existem, diria Carl Jung (1875 – 1961), que chamaria esse tipo de evento de sincronicidade. Então, o lugar visitado “virtualmente” por Platão era o mesmo visitado por Newton e Einstein? Acredito que sim, e arriscaria dizer que esse mesmo lugar foi visitado também pelos grandes gênios da humanidade e, como não poderia deixar de ser já que estamos tratando também de Arte, de Leonardo Da Vinci. Eu poderia, inclusive, ter utilizado exemplos de experiências “inspiradas” de diversos artistas em diferentes momentos da história, mas acabei optando pelos exemplos de filósofos e cientistas para mostrar exatamente que a inspiração, como experiência transcendental, não é exclusividade do meio artístico, como muitos costumam pensar. A propósito, esse mesmo texto poderia ter sido construído também com inúmeros exemplos de experiências muito semelhantes às de Platão, Newton ou Einstein vivenciadas por xamãs de diferentes épocas e culturas. Porém, nesse caso, tenho certeza, os paradigmas da lógica e do ceticismo acabariam interferindo na compreensão do que tento expor aqui.
Essas experiências transcendentais foram explicadas por Jung por meio dos seus conceitos de inconsciente coletivo e arquétipos, padrões simbólicos inerentes à psique humana que remetem à origem de nossa espécie e que emergem do inconsciente por meio dos sonhos, dos Mitos (narrativas e rituais) e do processo de transcendência (sonhos despertos, devaneio) propriamente dito.

Releitura da obra "A Criação de Adão" de Michelangelo, enfatizado a ideia do Big Bang e a criação do Universo.

Releitura da obra “A Criação de Adão” de Michelangelo, enfatizando a ideia do Big Bang e a criação do Universo.

No momento seguinte a experiência do devaneio (conceito filosófico de Bachelard) – leia-se inspiração – surge outra questão fundamental: No processo de criação que se segue, seria possível trazer à luz da linguagem racional – consciente – a ideia inspirada (símbolos, metáforas e arquétipos) em toda sua complexidade? Se não fosse possível, não conheceríamos então as obras filosóficas de Platão, a Teoria da Relatividade de Einstein, as teorias de Isaac Newton ou as criações visionárias de Da Vinci, não é mesmo?!
Sigmund Freud (1856-1939) afirmou em certo momento que “o homem não é senhor na sua própria casa”, referindo-se exatamente a dificuldade do domínio consciente da linguagem simbólica do inconsciente. Essa afirmação teria deixado muitos membros do Movimento Surrealista (vanguarda artística do século XX) desconcertados, já que o princípio formal do Surrealismo era exatamente expressar através de suas obras elementos do inconsciente.
Diferente de Freud, Jung abriu um vasto campo de o estudo sobre a influência da simbologia onírica, mítica e mística nas manifestações culturais e artísticas ao longo de nossa História, pois considerava que a verdadeira psique é o inconsciente, assim com Platão dizia que a verdade das coisas estava no plano invisível, o Mundo das Ideias. Não posso deixar de citar aqui uma frase do professor mitólogo Joseph Campbell, para complementa nosso raciocínio, que dizia que o seguinte: “o plano invisível sustenta o visível”.

Obra "Onde nascem os Mitos", Nelson Falcão.

Obra “Onde nascem os Mitos”, Nelson Falcão.

Como artista, acredito que universos oníricos permeados por símbolos, arquétipos e metáforas continuam a INSPIRAR a obra de muitos outros artistas contemporâneos (artes visuais, música, dança, teatro, cinema e literatura), além de outras áreas do conhecimento humano, que de forma consciente compreendem que esse simbolismo, possibilita, paradoxalmente, que o sonho desperte a consciência crítica, reflexiva e evolutiva do ser humano. Isso se torna possível, pois quando o indivíduo se distancia de sua própria realidade o mesmo passe a enxergá-la sob uma nova perspectiva, como sintetizaria o dramaturgo português José Saramago na seguinte frase: “É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós”. Particularmente, eu acho que passo mais tempo fora do que dentro, inclusive enquanto escrevia esse texto. E você, de onde vem sua inspiração?

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