Arte pra sair da Caverna

Formado em Artes Visuais pela Faculdade Belas Artes de São Paulo e com especialização em História da Arte, Nelson Falcão possui 15 anos de experiência no campo artístico voltado a pesquisas acadêmicas, produção e educação. Lecionou durante 7 anos na FMF – Faculdade Martha Falcão, ministrando disciplinas como História da Arte e do Design, Estética, Arte e Cultura no Amazonas, Desenho de Observação, entre outras nos cursos de Design, Design de Interiores, Publicidade e Jornalismo. Atualmente é coordenador pedagógico do Curso Virtual Arte e Cultura da SEC – Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas – e está desenvolvendo o projeto de criação do seu Liceu de Artes que oferecerá cursos de Artes Visuais, Música, Teatro e Dança.

 

“Onde nascem os Mitos” ou “Onde nascemos Mitos”? Assim como o título desse blog, a Arte e o Mito possuem também o poder de suscitar diferentes leituras que não se encerram em uma verdade única, pois afinal de contas, estamos lidando com aspectos da subjetividade humana. Seja em uma narrativa mitológica ou em uma obra de arte, estaremos sempre diante de uma linguagem simbólica que fala muito mais ao nosso inconsciente do que à nossa racionalidade.

O blog ondenascemosmitos se dedicará exclusivamente a esses dois universos distintos, mas que já possuíam uma função comum desde os nossos primórdios: a organização psíquica (conceitos, valores, formas, experiências, sentimentos, etc) de nossos ancestrais, mediante a necessidade da compreensão de sua própria existência, presentes tanto na mitologia universal quanto nos primeiros registros artísticos. Mas e hoje, para que nos serve afinal a Arte (artes visuais, música, dança, teatro, etc) e o Mito (mitologias de diferentes épocas e culturas)? Platão responde!

O filósofo grego Platão (428 – 348 a.C) criou uma parábola conhecida como “Mito da Caverna” que, em resumo, diz o seguinte: Imaginemos uma caverna onde habitam seres humanos que nasceram e cresceram ali sem nuca terem visto o mundo exterior pois, além de ignorarem essa possibilidade, ficavam de costas para a única fresta por onde entrava a luz do sol. Por estarem acorrentados, eram forçados a olhar somente para a parede do fundo da caverna onde eram projetadas, através do feixe de luz, sombras de outros seres humanos que caminhavam livres do lado de fora. Pelas paredes da caverna também ecoavam os sons que vinham do mundo exterior, reforçando a ideia, para aqueles prisioneiros, de que as sombras eram pessoas reais.

Certo dia, um desses prisioneiros se libertou e, seguindo o feixe de luz, foi enfrentando muitos obstáculos pelo caminho até, enfim, sair daquela caverna. Em sua saída sentiu o impacto da luz em seus olhos, mas logo descobriu que as sombras que viu por tanto tempo eram apenas projeções de outros seres humanos e, o que conhecia até então, não definiria a verdadeira forma das coisas e da Natureza. Caso ele decidisse voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontravam, ocorreria, segundo Platão, em sérios riscos, pois provavelmente seria morto ao ser considerado louco ou mentiroso por aqueles que ainda habitavam na escuridão da ignorância.

Quantos personagens históricos que “saíram da caverna” e voltaram para mostrar verdades a seus contemporâneos foram perseguidos, presos e, muitas vezes, mortos?!

O potencial de atualização do Mito da Caverna nos possibilita adaptarmos em sua estrutura narrativa muitos outros fatos históricos, como as mudanças profundas vivenciadas nas sociedades Moderna e Pós-Moderna. Foi no início do século XX, por exemplo, que um homem chamado Pablo Picasso “voltaria à caverna” para mostrar à sociedade europeia um tipo de arte “feia” que denunciaria uma época de mudanças, incertezas e medos que viriam a se materializar nos horrores das duas Grandes Guerras Mundiais. É nesse sentido, que a Arte representa um catalisador de ideias, emoções e sentimentos coletivos ainda velados (preconceito, hipocrisia, interesses institucionais, etc) por sua própria sociedade. Não à toa que grandes artistas como Vincent Van Gogh tenha sido reconhecido somente décadas depois de sua morte, afinal sua arte era um espelho que mostrava o que seus contemporâneos não queriam ver. A exemplo disto, Adolf Hitler ordenou que todas as obras de artistas expressionistas fossem queimadas por se tratar de uma arte degenerada, de loucos. Irônico, não?! O fato é que a Arte passou, de certa forma, a preencher na era Moderna a lacuna deixada pela pedagogia do Mito, aquela que nos ensinava a olhar pra dentro, que nos defrontava com nossos próprios demônios, mas que nos faria imaginar, sonhar e criar.

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