O labirinto do Curupira

Paisagem onírica INo início do mundo um deus criador deu vida a um pequeno e dócil macaco sem nome, para que este o ajudasse a cuidar de todos os outros seres criados. A harmonia daqueles tempos foi quebrada quando outro deus, que habitava o submundo, sequestrou o pequeno símio por ciúme do Criador. O macaquinho dócil seria torturado até que fosse totalmente corrompido pela escuridão; já modificado, fisicamente e moralmente, foi devolvido ao seu lugar de origem. Quando seu deus o viu, lamentou profundamente, pois além de ter sido transformado em algo grotesco, o macaco havia perdido seu caráter. E foi assim que o primeiro ser criado perdeu sua posição privilegiada durante a invenção do mundo para, a partir daí,  vagar pelas florestas, ainda cuidando de todas as criaturas que lá habitam, mas aplicando também todas as artimanhas que aprendeu nas sombras para aterrorizar os homens, que passaram a chamá-lo de Curupira.

Esse mito que por alguns momentos nos lembra o Gênesis, na criação do primeiro homem – Adão – nos oferece uma abordagem mitológica única, quando  consegue unir elementos Criacionistas aos Evolucionistas (a metamorfose de um macaco?!). O fato é que a função da mitologia de explicar a origem de tudo, de forma simbólica e poética, nos permite agora ligar arestas existenciais, históricas e científicas. Isto me faz lembrar de outro mito amazônico: o Boto, ou melhor, dos Filhos de Boto, crianças que eram geradas por seres encantados -semelhantes aos semideuses, comuns na Mitologia Clássica – que de boto transformavam-se em belos homens que, em noite de lua cheia, durante as festas realizadas nas pequenas cidades ribeirinhas, seduziam suas vítimas através da beleza física e de sua dança sensual (as sereia europeias que seduziam os marinheiros tanto pela sua beleza quanto por seu canto) levando essas jovens para o rio onde seriam engravidadas para darem à luz a bebês com barbatanas herdadas de seus pais. Esse mito que tem influências indígenas se configurou, essencialmente, nas sociedades ribeirinhas por toda a Amazônia, sobretudo no século XIX, durante o Ciclo da Borracha. Durante esse período eram comuns os casos de gravidez das filhas dos seringueiros, seduzidas pelos filhos dos “barões da borracha” que vinham da Europa para passarem temporadas de féria nesses seringais.

IMG_2436Assim como descrito na lenda do Boto, que trato aqui como Mito (com letra maiúscula sim!), esses rapazes de fino trato europeu vestiam-se muito bem com roupas claras (branco ou caqui, devido o calor amazônico) e o indispensável chapéu, principal símbolo do personagem mítico, pois escondia sua verdadeira identidade (um orifício na cabeça). O fato é que esses jovens estavam, geralmente, de passagem e não tinham também nenhum interesse em assumir seus filhos com as moças dos seringais. É interessante pensar em como a pedagogia do mito atua em uma determinada sociedade, pois os tais “filhos de boto” não eram tidos como bastardos, como certamente seriam tratados se nascessem nas grandes cidades daquela época, mas como frutos de uma experiência mística – como nos mitos europeus ou na própria Religião – que não devia explicação nenhuma a preceitos ou preconceitos sociais. Como os sábios ribeirinhos diriam: É coisa de encantado e pronto! Respeite!

Mas voltando ao “Labirinto do Curupira”, dentre as muitas deformidades desse ser mítico a mais característica são os pés invertidos. E é aqui que encontramos o nosso “Fio de Ariadne” (mito grego que relata como Teseu fugiu do labirinto do Minotauro com um novelo de linha dado a ele por sua amada Ariadne). Pra quê o labirinto do Minotauro afinal, se temos os pés do Curupira? Sim, os pés invertidos simbolizam por si só um labirinto, pois é através das pegadas desconexas deixadas pelo nosso personagem amazônico que os homens se perdem na ideia de um labirinto metafórico, representado pela floresta.

Oratório 3Do labirinto arquitetônico (geométrico) da Ilha de Creta, morada do Minotauro, ao labirinto orgânico da Floresta Amazônica, lar do Curupira, um único arquétipo na verdade habitaria em ambos: O guardião que representa a dualidade – luz e escuridão,  racionalidade e irracionalidade, consciente e inconsciente – está presente tanto no personagem Minotauro quanto no Curupira, ambos espelhos de nós mesmos em meio ao embate constante que travamos com a nossa própria irracionalidade, simbolizada respectivamente nesses dois mitos, pelos animais touro e macaco. Perder a consciência, a luz do conhecimento, é ceder a ignorância e a loucura, é se perder no seu próprio labirinto. Só encontra a saída quem consegue enfrentar – conhecer, aceitar e dominar – seus próprios demônios (lado irracional, animal).

Para os povos da floresta – do índio ao caboclo – a pedagogia do mito Curupira atenderia as necessidades do equilíbrio entre ser humano e Natureza. Homens que moram e vivem dos recursos da floresta costumam dizer que quando não se respeita a fauna e flora, a Mãe da Mata, síntese de todos esses seres encantados (Curupira, Matinta Perera, Mapinguari, etc), pune os intrusos com surras de cipó – não se vê o agressor, pois tudo ocorre na escuridão da floresta ou, quem sabe, do nosso próprio inconsciente – ou com enfermidades que muitas vezes levariam a morte. Nossos mitos seriam então um fabuloso mistério da mente humana, de se criar mecanismos que promovem gatilhos psíquicos que projetam seres imaginários (nossa própria Sombra, um lado sombrio que se faz necessário) para nos convencer que estamos agindo irracionalmente (Curupira é uma personificação dessa irracionalidade, simbolicamente animalesca), provocando nossa própria destruição. Lembro de relatos surpreendes que me foram contados, à muito custo, por homens e mulheres simples que vivem ou viveram por muito tempo no interior (florestas e rios) do Amazonas, distantes dos grandes centos urbanos. Era comum, no início, a negação desses eventos místicos vivenciados por eles, mas depois da confiança adquirida os relatos eram contados com a seriedade de uma revelação sagrada e por vezes muito íntima. E no fim de cada uma daquelas conversas fascinantes, uma frase da sabedoria popular se repetida: “Mas que existe, existe!”, uma forma simples e sábia de se justificar por algo que a racionalidade jamais explicará, “coisa de encantado!”.